sexta-feira, 6 de março de 2009

Agronegócio sem educação?

"Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Mas sabemos que o agronegócio só vinga onde há gente bem educada"

"Repetem-se as proezas do agronegócio brasileiro. O país faz bonito na soja, nos sucos, na carne, no frango e em outros produtos resultantes do feliz encontro entre sol, água, inovação tecnológica e capacidade empresarial. A equação contém os ingredientes do sucesso. Sol e água creditamos à generosidade divina. Na tecnologia, bem conhecemos a liderança da Embrapa, que traz a reboque muita pesquisa universitária. O empresariado rural foi uma surpresa. Persiste a imagem do coronel do interior, herdeiro de um feudalismo atrasado. Era um empresário ausente do campo e presente nas grandes capitais, onde esbanjava suas riquezas. De onde veio essa nova classe empresarial moderna, arrojada e pragmática?

A história ainda não está bem contada. Quem sabe o mapa do Brasil daria algumas respostas? Pedi a um agrônomo que me marcasse com pontinhos no mapa onde estava situado o agronegócio. Em seguida, tomei os níveis que cada estado obteve no Ideb (um indicador do MEC que combina a velocidade de avanço dos alunos no sistema com a pontuação obtida na Prova Brasil). Dividi os estados em quatro categorias. Em seguida, superpus um mapa ao outro. Pude ver, simultaneamente, a distribuição do agronegócio e o nível de avanço da educação. Surpresa! O agronegócio só viceja nos estados que estão na metade de cima da qualidade da educação. Seja qual for a razão, ele não gosta de estados com gente pouco educada.

Vamos entender melhor o lado da educação. A liderança dos estados do Centro-Sul é centenária. Mas o Centro-Oeste deu um salto enorme, ultrapassando velozmente o Norte e o Nordeste. A razão é simples: foi colonizado por migrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, tradicionalmente os estados com os melhores níveis de escolaridade. Ao migrar para os cerrados do Centro-Oeste, essa gente reproduziu lá seu estilo de vida. No interior de Goiás deparei com um negro trajando bombachas. Vinha do Rio Grande do Sul, tchê! Como levaram as bombachas, os gaúchos também carregaram para lá as escolas e a infraestrutura de água e esgoto tratados. O mapa, contudo, mostra algumas bolinhas avançando sobre estados educacionalmente mais pobres do Norte e do Nordeste. Mas são microrregiões colonizadas pelos fluxos migratórios sulinos, avançando no território do oeste da Bahia, sul do Piauí e do Pará.

As aparentes exceções não fazem senão confirmar o que indica o mapa: o agronegócio não se localizou onde a educação é fraca. Poderíamos pensar que a Embrapa estaria a serviço de um capitalismo sulino, furtando-se de investir no que precisariam o Norte e o Nordeste para dar igual salto. A teoria parece boa. Mas não é. A Embrapa tem enormes investimentos em produtos para toda a geografia nacional. Ainda assim, seus grandes clientes se encontram no agronegócio. Ao se registrar a forte aderência do agronegócio às regiões habitadas por gente mais bem educada, nota-se, também, pistas para o enigma do aparecimento de um empresariado moderno no campo. Ao que tudo indica, seu surgimento está ainda associado aos níveis superiores de educação e modernidade do Centro-Sul e às ondas de colonização vindas de lá.

Por serem mais bem educados e possuírem uma cultura empresarial, eles entendem de mercado e apropriam-se das melhores tecnologias. No fim dos anos 70, numa visita a Ijuí, eu discutia educação rural com as lideranças de uma cooperativa agrícola. Eu falava de escolas com galinhas circulando pelas salas de aula e não nos entendíamos. Finalmente, eu vi que estava fora de seu universo. A preocupação delas era conseguir que as instituições de ensino da região preparassem seus alunos para entender a bolsa de cereais de Chicago, já on-line na cooperativa. São esses os responsáveis pelo crescimento da soja no Centro-Oeste.

O que aprendemos com o mapa citado no presente ensaio? Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Podemos entrar no campo pantanoso das relações entre educação e traços culturais. Mas, no mínimo, ficamos sabendo que o agronegócio só vinga onde há ou aparece gente mais bem educada."

Claudio de Moura Castro é economista

4 comentários:

Nivia Andres disse...

A discussão é pertinente. O autor poderia utilizar "gente com maior nível de informação e conhecimento", ao invés de "gente mais bem educada". O que lhe parece?

Nivia

Agronegócio disse...

Parabéns pelo blog, abraços!

Adauto.EPAGRO disse...

Muito pertinente a postagem.A tecnologia empregada para desenvolver o agronegócio carece de pessoas com boa instrução e conhecimento de diversas áreas.Quem não investir em conhecimento e buscar meios para aprimorar pesquisas e desenvolver boas práticas estará perdendo cada vez mais espaço. Percebo de certa forma que o Brasil percebeu isto e possuímos uma estrutura bem montada e cada vez mais promissora, exemplo são os indicadores de desempenho nas diversas culturas que produzimos.

Fico feliz em descobrir este espaço, e em poder debater assuntos sobre agronegócio. Sou filho de Santiago-RS mas como tantos outros tive que abandonar minha cidade a procura de emprego.Conheço sua trajetória como prefeito em nossa cidade e esperava vê-lo nesta posição novamente.Me recordo do seu projeto "Sol da meia-noite" onde foram ilumindas muitas ruas em Santiago, o que muito alegrou minha infância de brincadeiras e jogos de futebol na frente de casa até tarde. Seguirei seu blog e deixarei o link do meu para o senhor visualizar.

Atenciosamente

Adauto Marques

www.adautoepagro.blogspot.com

Adauto.EPAGRO disse...

Muito pertinente a postagem.A tecnologia empregada para desenvolver o agronegócio carece de pessoas com boa instrução e conhecimento de diversas áreas.Quem não investir em conhecimento e buscar meios para aprimorar pesquisas e desenvolver boas práticas estará perdendo cada vez mais espaço. Percebo de certa forma que o Brasil percebeu isto e possuímos uma estrutura bem montada e cada vez mais promissora, exemplo são os indicadores de desempenho nas diversas culturas que produzimos.

Fico feliz em descobrir este espaço, e em poder debater assuntos sobre agronegócio. Sou filho de Santiago-RS mas como tantos outros tive que abandonar minha cidade a procura de emprego.Conheço sua trajetória como prefeito em nossa cidade e esperava vê-lo nesta posição novamente.Me recordo do seu projeto "Sol da meia-noite" onde foram ilumindas muitas ruas em Santiago, o que muito alegrou minha infância de brincadeiras e jogos de futebol na frente de casa até tarde. Seguirei seu blog e deixarei o link do meu para o senhor visualizar.

Atenciosamente

Adauto Marques

www.adautoepagro.blogspot.com